Cenário da saúde mental no Brasil e no mundo

A relação que se estabelece entre trabalho e saúde/doença mental tem sido crescente, assim como as estatísticas comprovam o número cada vez maior de afastamentos causados por transtornos mentais e comportamentais no Brasil e no mundo. Segundo a OMS, os transtornos mentais e comportamentais são universais, frequentes e atingem ¼ (um quarto) da população em algum momento da sua vida, afetando pessoas de todas as nacionalidades e sociedades, faixa etária, gênero, classe social, setor industrial, alcançando populações tanto de zonas urbanas quanto rurais. Impactam economicamente as sociedades e afetam o padrão de vida das pessoas e de suas famílias. Para se ter uma dimensão do problema, cerca de 10% da população adulta sofre de algum transtorno mental ou comportamental (WHO, 2002a).

Segundo a OMS (WHO, 2002b), aproximadamente 1 em cada 5 doentes atendidos por profissionais de saúde apresentam um ou mais transtornos mentais e comportamentais. Isso significa que as famílias poderão ter pelo menos um membro com um transtorno mental ou comportamental, precisando dar não só apoio físico e emocional, mas também suportar o impacto econômico, assim como o peso do estigma e da discriminação (WHO, 2002b). Até 2020, prevê-se um crescimento desses transtornos em até 15%, chegando a ocupar a segunda causa de afastamento do trabalho no mundo. Os transtornos mentais mais comuns, que geralmente causam incapacidade grave, abrangem transtornos depressivos, transtornos causados pelo uso de substâncias psicoativas, esquizofrenia e perturbações da infância e da adolescência. Entre os quadros neurológicos estão epilepsia e doença de Alzheimer. A prevalência, a manifestação e a progressão destes problemas estão associadas ao nível econômico-social, gênero, idade, conflitos e catástrofes, graves doenças físicas e o ambiente familiar e social (WHO, 2002a).

De acordo com a OIT, o estresse ocupa a segunda posição entre os problemas de saúde relacionados ao trabalho, afetando cerca de 40 milhões de pessoas. Ainda de acordo com a Organização, entre 50 a 60% de todos os dias de trabalho perdidos no continente estariam ligados a esta condição. No Brasil, os transtornos mentais e comportamentais foram a terceira causa de incapacidade para o trabalho, considerando a concessão de auxílio-doença e aposentadoria por invalidez, no período de 2012 a 2016 (Sistema Único de Benefícios – SUB).

O impacto do estresse pode variar de acordo com a resposta individual, no entanto, é preciso atentar para o fato de que níveis elevados de estresse podem contribuir para o desenvolvimento de deficiências relacionadas à saúde (tais como doenças cardiovasculares, distúrbios musculoesqueléticos, burnout, depressão, ansiedade e suicídio) e comportamentos de coping (enfrentamento) danosos à saúde (tais como abuso de álcool e drogas, uso de tabaco, dieta insalubre, insuficiente atividade física e distúrbios do sono).

A OMS (WHO, 2002a) trata o estresse como um problema de saúde pública reconhecido como uma questão global que afeta todas as profissões e todos os trabalhadores, tanto nos países desenvolvidos quanto nos países em desenvolvimento. Em função deste quadro, no ano de 2016 a OMS lançou como tema da campanha do Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho, celebrado dia 28 de abril: “Estresse no trabalho: um desafio coletivo”. O relatório chama a atenção para as tendências globais atuais sobre o estresse relacionado com o trabalho e seus impactos, visando aumentar a sensibilização para a magnitude do problema no novo contexto do mundo do trabalho (ILO, 2016).

Em levantamento realizado pela OMS, identificou-se que o estresse ocupacional é determinado pela organização, pelo design e pelas relações de trabalho e ocorre quando as demandas do trabalho não estão em acordo ou excedem as capacidades, recursos ou necessidades do indivíduo de lidar com elas. Ou, ainda, quando o conhecimento ou as habilidades de uma pessoa, ou de um grupo, para dar conta dessas demandas não são compatíveis com as expectativas da cultura organizacional de uma empresa (ILO, 2016).

A EU-OSHA (2014a) ressalta que enfrentar o estresse e os riscos psicossociais pode custar grandes somas às organizações. No entanto, ignorá-los pode resultar em custos ainda maiores, afetando o desempenho e levando ao presenteísmo e absenteísmo. Ainda, enfrentar longos períodos de estresse pode desencadear sérios problemas de saúde, tais como doenças cardiovasculares ou musculoesqueléticas, aumentando ainda mais os custos incorridos. Vale ressaltar que há custos para os indivíduos (deficiência de saúde, menor renda e qualidade de vida reduzida), para as organizações (absenteísmo, presenteísmo, produtividade reduzida, ou alto turnover de pessoal) e para a sociedade (custos com despesas médicas, seguridade social, as baixas por doença, perda de produtividade devido à morte prematura, perda de anos de vida em relação à esperança de vida e efeitos na economia).

Os custos diretos e indiretos apenas começam a ser quantificados. Ainda assim, alguns países desenvolvidos avaliam o impacto econômico do estresse ocupacional, padrões comportamentais associados e distúrbios de saúde mental. Por exemplo, na Europa, em 2002, o custo estimado do estresse ocupacional ultrapassava a marca de 20 milhões de euros por ano. Já os custos na Europa com depressão relacionada com o trabalho, segundo a Executive Agency for Health and Consumers (MATRIX, 2013), era de 617 milhões de euros por ano (dados de 2013), o que inclui os custos para os empregadores de absenteísmo e presenteísmo (272 milhões de euros), perda de produtividade (242 milhões de euros), custos com assistência médica (63 bilhões de euros) e os custos do bem-estar social sob a forma de pagamentos de benefícios por invalidez (39 milhões de euros).

No Brasil, o Anuário Estatístico da Previdência Social – AEPS (PREVIDÊNCIA SOCIAL, 2015) divulgou dados sobre auxílios-doença urbanos ativos no Brasil em 2015 de acordo com a Classificação Internacional de Doenças (CID-9 e CID-10). Quando codificados com base no CID-9, os transtornos mentais despontavam como a primeira causa. Quanto à quantidade e valor de auxílios-doença urbanos ativos, por sexo do segurado, segundo os capítulos da CID, posição de dezembro, os dados extraídos do AEPS de 2015 do site do Ministério do Trabalho e Previdência Social (MTPS) indicam 835 auxílios pela CID-9, totalizando R$ 762.000.

Já de acordo com o CID-10, os transtornos mentais aparecem como a terceira causa entre os auxílios-doença urbanos ativos no Brasil em 2015. Quanto à quantidade e valor de auxílios-doença urbanos ativos, por sexo do segurado, segundo os capítulos da CID, posição de dezembro, os dados extraídos do AEPS de 2015 do site do MTPS indicam 1.032.959 auxílios pela CID-10, correspondendo R$ 1.267.595.000

Diante deste contexto complexo, o local de trabalho torna-se um local ideal para abordar os fatores psicossociais no intuito de proteger a saúde e o bem-estar social dos trabalhadores, por meio de medidas coletivas, eliminando assim o conceito de trabalho adoece. Sem um bom nível de saúde no trabalho, o indivíduo não pode contribuir para a sociedade e tampouco alcançar seu próprio bem-estar. Se a saúde no trabalho é ameaçada, não há base para emprego produtivo e desenvolvimento sócio econômico. Uma organização saudável é aquela que valoriza e pratica a facilitação do bem-estar e da saúde do trabalhador assim como a melhoria do desempenho e produtividade organizacional. Partindo desta compreensão, a próxima seção tratará de discorrer sobre possibilidades de intervenção.

Considerando os desafios relacionados à gestão dos fatores psicossociais, o Centro de Inovação SESI em Fatores Psicossociais desenvolveu a solução inovadora, GeSTRESS, que consiste na utilização de um aplicativo (App) com técnicas de autoconhecimento, mindfulness e autocontrole, para promover o auto desenvolvimento de líderes e contribuir para a liderança de alta performance. O GeSTRESS tem como objetivo contribuir para a gestão do estresse no ambiente de trabalho e contribuir para a melhor gestão das equipes. Saiba mais e demais soluções em Fatores Psicossociais, acessando o sítio eletrônico  ou cadastre um novo desafio.

Autor:

Graziela Alberici, Centro de Inovação SESI em Fatores Psicossociais

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