Conceitos de Ergonomia: contribuição no cotidiano para uma vida saudável e segura

Em diversas áreas do conhecimento humano, especialmente em ergonomia, vários estudos são realizados com objetivo de compreender de que modo a percepção da intensidade do fluxo de informação reflete em tomadas de decisão. Buscamos na perspectiva da ergonomia, contextualizar uma situação especial a fim de compreender a repercussão da percepção da intensidade destas informações do cotidiano da população em geral. 

Refletiremos a partir de uma tarefa comum à grande parte da população, dirigir automóvel. Esta atividade exige muito de nossos sentidos, percepções e tomadas de decisão. Dentre as exigências destacamos a visão, a audição, a concentração, a atenção, a percepção do tempo, do espaço, da realidade à nossa volta, a memória, a vigília e a atenção aliados à necessidade de processar estas informações para tomadas de decisão. Exige esforço físico, mental e ajustes corporais durante toda a atividade, pois os acionamentos são constantes, coordenados e requer precisão. 

Montadoras de automóveis, percebendo que as pessoas permanecem grande parte do dia dentro dos seus veículos, desenvolveram tecnologias que favorecem o conforto para a dirigibilidade e para a comunicação através da conexão de equipamentos de multimídias cada vez mais diversificadas. 

A tecnologia atualmente utilizada, em especial para o funcionamento da multimídia embarcada nos automóveis, intensifica o esforço para dirigibilidade. Ficamos nos perguntando se percebemos o impacto deste fluxo de informação no cotidiano? Como esta situação afeta a saúde física e mental? Quantos são e onde estão os registros da repercussão destas afecções ou alterações na saúde da população? 

A Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) apontou 2018, 1,35 milhões de indivíduos morreram por acidentes de trânsito em todo o mundo gerando um custo de 3% do PIB/país. A faixa etária com maior mortalidade situa-se entre 05 e 29 anos.

No Brasil, dados do Departamento de Informação e Análise Epidemiológica da Secretaria De Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde, 2018, aponta que a faixa etária com maior mortalidade situa-se entre 15 e 49 anos, com taxa de 36/100 mil ocorrências, classificada como a segunda causa de mortalidade em 2018. Nesta faixa etária encontram-se a maior concentração da população economicamente ativa, formalmente e também informalmente reconhecida como trabalhadores. Quando não se observa a faixa etária a taxa de mortalidade se reduz para 32,8/100 mil ocorrências. Dados da OPAS aponta também que 82% dos óbitos por acidentes de trânsito são do sexo masculino. Estes dados refletem a grandeza de variáveis que podem afetar a tarefa de dirigir e trafegar em vias públicas, dentre estas se destacam, segundo a OPAS, falhas dos sistemas de segurança, os erros humanos, a velocidade excessiva, a associação de álcool ao dirigir e também direção distraída. Na direção distraída concentramos nossa atenção por afetar o que consideramos o sistema homem-máquina na interface entre a percepção das informações e as respostas esperadas.

O método utilizado pela ergonomia, a fim de propor esta reflexão, está pautado nas premissas de que o quantitativo de informações e percepções afetam a qualidade das respostas. Na perspectiva da ergonomia, as demandas por decisões associadas a um fluxo grande de informações acentuam a probabilidade de comprometer o resultado. O que se observa nas questões relacionadas à atividade de dirigir e trafegar utilizando-se de automóvel exemplifica bem esta situação. 

No cotidiano todas as informações demandam tomadas de decisão que são por vezes, naturalizadas e automatizadas. A neurociência afirma que somente uma pequena parte de nossas respostas, ações e tomadas de decisão está em nível de consciência. No âmbito da ergonomia, observa-se esta situação, a partir da tarefa na interface homem-máquinas e das repercussões destas demandas de processamento de informações sobre os indivíduos. 

No ambiente de trabalho este custo é traduzido na “energia” dispendida pelos trabalhadores. Considera-se energia todo o custo físico e mental para a execução da tarefa. É, portanto a medida da carga dos esforços solicitados. Isto pode ser transcrito também para o cotidiano, no contexto de intensidade da percepção de informações a que somos submetidos. Ha quatro décadas atrás, pesquisas do professor Sanches de Queiroz da Universidade Federal do Rio de Janeiro afirmava em teoria que há trilhas de memória para as respostas motoras e gestos armazenadas em forma de “engramas” localizadas em várias regiões do cérebro humano. 

Em recente estudo publicado na revista Sciences, 2017, pesquisadores do Centro de Genética e Circuitos Neurais do Instituto De Tecnologia De Massachusetts (MIT) confirmaram em parte esta teoria. Em estudo experimental onde os cientistas marcaram com proteínas fotossensíveis, células de camundongos geneticamente modificados e estimulados para a atividade cerebral, verificaram estruturas cerebrais que surgem quando uma memória se forma, reconhecidas pelos pesquisadores como a parte física de nossas lembranças. Estas células são chamadas de células do “engrama”. São estas células do “engrama” que estão prontas para as demandas de respostas motoras a partir dos gestos básicos que ao longo da vida se aperfeiçoam quando a coordenação motora é exigida ou se deterioram pelo desuso.

Observamos em especial, comportamento que incrementa e afeta a percepção das informações no curso da condução de automóveis, cada vez se torna comum e natural para os motoristas urbanos adicionar distrações ao dirigir. Multiplicam-se exponencialmente o número de motoristas que utilizam de smartphones, enquanto dirigem o automóvel em via pública. Uma companhia de telefonia americana encontrou entre seus clientes evidências de que 80% destes utilizam o telefone móvel ao dirigir. Estudos da Organização Mundial de Saúde (OMS) 2011, apontam que ocorreu um incremento no uso dos smartphones ao volante e isto aumenta em quatro vezes o risco de acidentes. Estudos realizados pela OMS também avaliou diversas situações de distração ao dirigir automóvel. Distrações como ajustes de temperatura do interior do automóvel enquanto dirige, uso de equipamentos de orientações por GPS, tabaco ao volante, comer enquanto dirige e até mesmo conversar com os demais ocupantes do veículo. Mas, o mais impactante foi o uso de equipamentos de comunicação móvel, acoplados ou não aos modernos instrumentos de multimídia dos veículos. Estes equipamentos impactam de modo significativo no risco de acidentes por incrementar quantitativamente as percepções e o processamento de informações, por vezes associados a fortes emoções. 

Tornam-se variáveis interdependentes no processo de tomadas de decisão. O uso dos smartphones como distração ao volante pode representar um verdadeiro “vôo cego”. Estudos de Strayer & Cooper (2017) da Universidade de Utah encontrou um tempo médio de distração de 27 segundos na utilização dos smartphones ao volante, o que representa um risco acrescido se considerarmos uma velocidade de 40 km/h, suficiente para percorrer às cegas a aproximadamente 300m. 

O comportamento dos indivíduos reflete a tendência de aceitar que temos sempre o controle da situação. Enganam-se aqueles que assim pensam e agem imprudentemente. Respostas e tomadas de decisão associados às ações que sempre são automatizadas, temos pouco ou nenhum controle. 

A ergonomia se depara com uma proposta pretensiosa neste caso, por considerar que somente a partir de respostas e ações em nível da consciência podemos minimizar os riscos de acidentes quando juntamos smartphones ao ato de dirigir. Então, a solução para este risco passa pela redução da demanda de processar informações associado a não utilização de modo consciente dos smartphones ao dirigir.

Conscientizar indivíduos acerca de comportamentos de risco produz resultados quando se experimentam situações o mais próximos da realidade. A consultoria especializada do Centro de Inovação em Ergonomia de Minas Gerais dispõe de tecnologias que simulam virtualmente situações de risco em ergonomia. Trata-se de tecnologias em realidade virtual, que reproduzem modelos e situações que permitem vivenciar a experiência de risco. Esta interface das tecnologias utilizadas pela ergonomia pode ser usada para situações do cotidiano, em especial no quadro abordado pelo artigo.

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Autor:

Eduardo Castro de Assis

Ergonomista do Centro de Inovação SESI em Ergonomia

Referências:

BRASIL. Ministério da Saúde. Departamento de Informação e Análise Epidemiológica da Secretaria De Vigilância em Saúde. Boletins Epidemiológicos.2018.Brasilia. DF. Brasil Disponível em: http://www.saude.gov.br/boletins-epidemiologicos. Acesso em 01 de junho de 2019.

OMS. World Health Organization. mobile fone use: a growing problem of driver distraction. Geneva, Switzerland, World Health Organization, 2011 . Disponível em : http://www.who.int/violence_injury_prevention/publications/road_tra€c/en/index.html. Acesso em 31 de maio de 2019.

OPAS. Organização PanAmericana de Saúde. folha informativa – acidentes de transito. Brasilia. DF. Brasil. Disponível em: https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5147:acidentes-de-transito-folha-informativa&Itemid=779. Acessado em 01 de junho de 2019.

Takashi Kitamura et al; engrams and circuits crucial for systems consolidation of a memory. Science 356, 73–78 (2017) 7 April 2017. Disponível em: https://science.sciencemag.org/content/356/6333/73 Acessado em 31 de maio de 2019.

Strayer, D. L., Cooper, J. M., Turrill, J., Coleman, J. R., & Hopman, R. J. (2017). The smartphone and the driver’s cognitive workload: A comparison of Apple, Google, and Microsoft’s intelligent personal assistantsCanadian Journal of Experimental Psychology/Revue canadienne de psychologie expérimentale, 71(2), 93-110. Disponível em: Disponível em: http://appliedcognition.psych.utah.edu/publications/smartphone_workload_apple_17.pdf. Acessado em 31 de maio de 2019.

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