O impacto do estilo de vida na saúde

Segundo recente publicação do Global Burden of Diseases, a Carga Global de Doenças, que é o maior estudo mundial para quantificar a magnitude de perda de Saúde devido a doenças e sua relação com dados demográficos (localização geográfica, idade, sexo, entre outros) e que permite a comparação da evolução de doenças ao longo dos anos e entre localidades. As doenças crônicas não transmissíveis representam atualmente a maior causa de mortalidade mundial. Tendo sido responsável por 15 milhões de mortes em 2017 de pessoas entre 30 e 69 anos, ou seja, pessoas em idade economicamente ativa. 

No Brasil de 1990 a 2015 as doenças contagiosas e lesões tiveram uma redução em sua incidência enquanto as doenças crônicas aumentaram em 16,2 pontos percentuais, mostrando a crescente necessidade de se abordar esse tema junto à população

O mais aterrorizante em relação a esses dados, é que além das taxas de mortalidade as doenças crônicas não transmissíveis são as maiores causadoras de anos perdidos ajustados por incapacidade. Ou seja, além de matar essas doenças impactam diretamente na capacidade para o trabalho e não curiosamente, a sinistralidade média dos planos de saúde de 2005 a 2015 foi de 82,1%. Mostrando o custo agregado ao tratamento dessas doenças que muitas vezes por não serem acompanhadas corretamente, geram complicações e a necessidade de intervenções médicas de maior complexidade, como consultas em pronto-socorro, internações e até cirurgias.

Dentre as principais doenças crônicas destacam-se no mundo em primeiro lugar as doenças cardiovasculares, em segundo o câncer, em terceiro doenças respiratórias e em quarto a diabetes. No Brasil, diferentemente, o terceiro lugar é ocupado por transtornos musculoesqueléticos e o quarto por doenças mentais e uso de outras substâncias. Essa diferenciação em relação ao global nos mostra que ainda há muito a fazer quanto à prevenção e tratamento das doenças osteomusculares e que os crescentes transtornos emocionais.

Mas o que causam as doenças crônicas? 

As causas das doenças crônicas são multifatoriais, passando de predisposição genética, por fatores de risco comportamentais, metabólicos até riscos ocupacionais e de condições de moradia ou ambiente do entorno. Por conta dessa complexidade essas doenças podem ser desenvolvidas ao longo da vida. Assim ao invés de se pensar exclusivamente em tratamento com fármacos mais modernos ou ferramentas diagnósticas de alta complexidade devemos pensar em como evitá-las e controlá-las a fim de reduzir seus efeitos.

Para o cumprimento dessa missão é necessário expandir nosso pensamento para os fatores de risco que estão atrelados ao desenvolvimento dessas doenças. O tabagismo, a inatividade física, o uso abusivo de álcool e dietas não saudáveis são apontados como os principais fatores de risco globais. No Brasil ainda, somam-se a esses riscos comportamentais, dois riscos metabólicos: pressão arterial e Índice de Massa Corpórea elevados. 

A associação desses dois riscos com a crescente obesidade na população brasileira aponta para a necessidade de medidas em relação à mudança no estilo de vida das pessoas como um determinante de saúde. 

Historicamente o estilo de vida das pessoas tem sido altamente impactado e moldado pelo avanço tecnológico. Anteriormente à primeira Revolução Industrial, o trabalho no campo era regido pela luz solar e o descanso, pela sua ausência. A relação com o dinheiro e a ascensão social era praticamente inexistente. Os alimentos eram cultivados para consumo familiar e o esforço físico presente diariamente. A expectativa de vida era mais baixa e as doenças contagiosas foram por muitas vezes fatais.

Com as Revoluções Industriais intensificou-se a urbanização e se reduziu as distâncias de deslocamento. Mudaram-se os processos, criaram-se postos de trabalho essencialmente administrativos que impactaram na organização do trabalho e nas relações humanas envolvidas na produção de bens. 

Os esforços físicos foram diminuídos, porém tornaram-se repetitivos e extensivos após o pôr-do-sol. As pessoas passaram a acumular empregos e funções a fim de aumentar a renda da qual dependia o sustento direto de suas famílias, uma vez que não produziam mais seu próprio alimento. Tal relacionamento com o dinheiro, possibilitou a ascensão social. A medicina avançou e grandes epidemias puderam ser controladas e até dirimidas.

O advento da energia elétrica possibilitou uma facilitação no armazenamento e conservação dos alimentos. As atividades de lazer, no entanto, tornaram-se menos ativas, principalmente com o crescimento das cidades e consequentemente das distâncias. Os deslocamentos a pé foram substituídos por meios de transporte mais rápidos onde as pessoas ficam paradas. As telecomunicações reduziram distância, os computadores aumentaram a produtividade, a internet possibilitou a aceleração da comunicação e o acesso à informação.

Nesse crescente tecnológico  vivemos a quarta Revolução Industrial.

Os supercomputadores e a automação de processos produtivos exige profissionais cada vez mais especializados. A velocidade nas mudanças e melhorias dos processos exigem constante atualização desses profissionais.  Empregos e profissões hoje comuns podem não existir nos próximos anos. A inteligência artificial e o machine learning são novos aliados, cada vez mais presente na vida das pessoas e não somente no trabalho. Os computadores pessoais, a internet, os smartphones, as redes sociais e os serviços de mensagens instantâneas ampliaram largamente a disponibilidade de dados, informações e a interatividade sem a necessidade de convívio físico.

Muitas pessoas continuam acumulando mais de um emprego ou atividades domésticas ou estudos e passam grande parte do seu dia se deslocando entre o local de trabalho e sua residência, muitas vezes com pouco conforto, além de não reservarem tempo ou espaço físico adequado para a realização de suas refeições.

Neste cenário complexo é que precisamos pensar o papel do estilo de vida na saúde das pessoas e entender como influenciá-las para a adoção de hábitos que as protejam do desenvolvimento de doenças crônicas ou as permitam diminuir os efeitos dessas doenças.

Impactar a vida das pessoas é uma questão que quando considerada amplamente torna-se de domínio da saúde pública e requerem ações que atinja o maior número de pessoas possível, nesse sentido temos dois excelentes exemplos que reúnem ações de controle e prevenção que influenciam na escolha das pessoas quanto a comportamentos protetivos.

O primeiro exemplo refere-se a acidentes de trânsito. A política de redução de acidentes incluiu além da obrigatoriedade do uso de cinto de segurança, campanhas educativas para conscientização sobre não dirigir alcoolizado e multas para infratores, a oferta de equipamentos de segurança em todos carros novos direto de fábrica, como freios ABS e air-bags. As ações com a população e a indústria automobilística proporcionou uma redução de 5 posições para os acidentes de trânsito como causa de mortalidade em países desenvolvidos, como os Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha no período de 1990 a 2017.O segundo exemplo é motivo de orgulho para o Brasil e refere-se ao tabagismo. Nesse caso, as mudanças foram no âmbito de mudanças de legislação que ampliou os impostos e encareceu o produto,  restringiu os locais de consumo, proibiu as propagandas em televisão e outros meios de informações, restringiu os locais de comercialização, normatizou as informações do rótulo tornando obrigatório as informações educativas sobre as consequências do consumo que também foram disseminadas em campanhas educativas. Conforme o levantamento do Vigitel de 2017, tais ações impactaram em uma redução de 5% no número de fumantes no período de 2006 a 2017.

Auxiliar as pessoas na tomada de decisão quanto à adoção de hábitos saudáveis ao invés de deletérios é de grande valia, mas considerando a multifatoriedade das doenças crônicas, quais os principais fatores que devemos enfocar na promoção de um estilo de vida saudável para populações?

Segundo um estudo longitudinal conduzido pela Escola de Saúde Pública de Harvard entre os anos de 1980 a 2014 um estilo de vida saudável perpassa 5 grandes áreas: 

  1. Alimentação Saudável:

Garantia do consumo diário de cereais, verduras, frutas e legumes e controle do consumo de gorduras saturadas, sódio e açúcar;

  1. Nível regular de atividade física: Realizar no mínimo 30 minutos de atividade moderada por dia;
  2. Manutenção do peso saudável: Manter o índice de massa corpórea entre 18 e 25;
  3. Não fumar;
  4. Consumo moderado de álcool: de no máximo 1 drinque por dia.

Um dado interessante apontado pelo estudo é que todas as áreas se correlacionam. 

As correlações de destaque são entre prática de atividade física ou alimentação saudável com o consumo de álcool e tabaco e com a manutenção do peso saudável. Segundo os achados, as pessoas que engajam em uma atividade física ou dieta regular possuem menores chances de consumir álcool e tabaco e maiores chances de manterem um peso saudável. 

Dessa forma, podemos destacar como prioritárias as ações de promoção de atividade física e alimentação saudável.

O Centro de Inovação SESI em Estilo de Vida e Saúde foi criado com o objetivo de fomentar e desenvolver pesquisa, inteligência e soluções para prevenção e intervenção em doenças crônicas não transmissíveis. As inovações buscam desenvolver ambientes favoráveis e estimular a mudança de comportamento individual e coletivo, de forma a influenciar as escolhas e hábitos dos indivíduos em prol da saúde. 

Dentro do objetivo maior do Centro de Inovação SESI em Estilo de Vida e Saúde, e pensando em menores populações, os recursos empresariais dispostos para a atuação com os funcionários são de grande colaboração e impacto já que as pessoas passam cerca de 1/3 do seu dia no ambiente de trabalho. Mas como favorecer a alimentação saudável para uma população de empresa?

As melhores estratégias passam pelo investimento na oferta de alimentos com menor teor de sódio, açúcares e gorduras dentro próprio ambiente de trabalho, seja no restaurante da empresa com ajustes no cardápio, frutas para livre-consumo, feiras no final do expediente ou ainda favorecendo tal consumo por motivação educativa, selos de reconhecimento de restaurantes saudáveis ou ainda benefícios financeiros como descontos ou cash-back.

A inserção de atividade física no dia-a-dia, parece mais dificultosa, porém pequenos ajustes podem favorecer a adoção de escolhas mais ativas para mobilidade e deslocamento, mudança dos locais de estacionamento, incentivo ao uso de escadas, pausas assistidas com ginástica laboral, além de possibilidades mais ofensivas, com formação de equipes para a prática de atividade física que promove a aproximação não-virtual de pessoas e pode estar relacionada a metas coletivas de passos e recompensas e uso de tecnologia já disponível para esse monitoramento.

Essas são algumas das soluções que podem ser traçadas junto ao Centro de Inovação SESI em Estilo de Vida e Saúde, mas nós identificamos ainda outros 6 desafios:

  1. A implementação da cultura de valorização da saúde e prevenção de riscos comportamentais que incluem a conscientização dos trabalhadores sobre os fatores de risco que desencadeiam e agravam as doenças crônicas não transmissíveis;
  2. A melhora da condição e estilo de vida desses trabalhadores para a prevenção e controle de doenças pré-existentes;
  3. A avaliação de dados por meio de bases tecnológicas para mensurar das ações implementadas nas empresas sobre saúde, seus custos e além de predições relacionadas às doenças crônicas não transmissíveis
  4. A utilização e potencialização de tecnologias e métodos inovadores para estimular e perenizar a mudança de hábitos e comportamentos não saudáveis. 
  5. Favorecer o acesso a ambientes corporativos adequados à melhoria do estilo de vida.
  6. Identificar os fatores de riscos comportamentais dos trabalhadores para planejar intervenções eficientes para a melhoria do estilo de vida.

As pesquisas e soluções do CIS- Estilo de Vida e Saúde são sempre desenvolvidas a partir de demandas e desafios das indústrias, de forma customizadas podendo ser, serviços, tecnologias e metodologias, sempre com apoio de evidências científicas, dados e análises ambientes de trabalho e padrões de interação social, avaliando inclusive seus impactos econômicos. 

A etapa de co-criação com as empresas é essencial para conseguirmos facilitar, por meio de pesquisas e desenvolvimento de soluções a construção de políticas empresariais e ações que possibilitem aos funcionários a adoção de um estilo de vida saudável, fazendo do trabalho um fator de proteção ao desenvolvimento de doenças crônicas.

Fique por dentro deste Centro de Inovação SESI em Estilo de Vida e saúde, por meio do sítio eletrônico:

Acesse esta e outras soluções do CIS, por meio da Plataforma Nacional de soluções inovadoras SESI:

Conheça as soluções dos Centros de Inovação SESI (CIS), por meio da Plataforma Nacional de Soluções Inovadoras do SESI: http://inovacaosesi.org.br/ e cadastre desafios.

Autora:

Marina Tavares Ribeiro

Coordenadora do Centro de Inovação em Estilo de Vida e Saúde

cis@sesisp.org.br

Referências:

Malta, DC., Felisbino-Mendes, MS., Machado, IE., Passos, VMA., Abreu, DMX., IshitaniI, LH., Velásquez-Meléndez, GI, Carneiro, M., Mooney, M., Malta,  MN. Fatores de risco relacionados à carga global de doença do Brasil e Unidades Federadas, 2015. Revista Brasileira de Epidemiologia, 2015.

 

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